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  • Foto do escritorMarcio Both

A Escola União Indústria de Juiz de Fora e a Instrução Rural no Brasil do Século XIX

No bojo das transformações que marcaram o Brasil da segunda metade do século XIX, as questões relacionadas ao desenvolvimento científico e as tentativas de modernizar a agricultura brasileira, considerada a principal indústria do país na época, cada vez mais vem sendo objeto da preocupação dos historiadores/as contemporâneos.


O livro de Begonha Bediaga, sobre o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, apresentado em postagem anterior (clique aqui para ler), faz parte deste escopo. No mesmo sentido, caminha a dissertação de mestrado de Adalberto Alves de Mattos, que trata sobre a Escola Agrícola União Indústria, fundada em Juiz de Fora na década de 1860. Esta escola, juntamente com os imperiais institutos de agricultura, foi uma das principais iniciativas adotadas no período e que tinha como foco instruir as populações agrícolas brasileiras nas artes das ciências agrárias. No geral, elas foram inspiradas em experiências que já vinham sendo desenvolvidas na Europa há bastante tempo (França, Inglaterra, Alemanha e Suíça), e buscavam formar, em termos teóricos e práticos, uma nova geração de agricultores que seriam orientados pelas luzes da ciência e, assim, deveriam realizar a importante tarefa de fazer com que a agricultura brasileira encontrasse maior desenvolvimento.


Como mostra Adalberto Mattos, embora em termos de sua estruturação e objetivos, a Escola Agrícola União Indústria possa ser comparada aos imperiais institutos de agricultura, principalmente com a Escola São Bento de Lages do Imperial Instituto Baiano de Agricultura, ela tinha suas particularidades próprias que garantem a sua singularidade histórica. A primeira e talvez mais importante delas é a de que esta Escola foi resultado da iniciativa privada, uma vez que esteve ligada a Companhia União Indústria que, no final da década de 1850, recebeu concessão do governo imperial para construir aquela que é considerada a primeira rodovia macadamizada do Brasil e da América Latina, a qual ligou a província de Minas Gerais a do Rio de Janeiro (Juiz de Fora-Petrópolis). Outra particularidade da Escola é a de que ela está diretamente vinculada a trajetória de seu fundador, Mariano Procópio Ferreira Lage, um importante personagem histórico da economia e da política mineira e nacional do período.


A dissertação de Adalberto Mattos está dividida em 3 capítulos muito bem constituídos e que dão conta de contar a trágica história da Cia União indústria, da Escola e de Mariano Procópio. No primeiro capítulo, o foco do autor é a trajetória de Procópio; no segundo, a Companhia e, no terceiro, a Escola. São capítulos que se complementam e possibilitam conhecer a história do empreendimento levado a cabo por Mariano Procópio, seus sócios, apoiadores e críticos, desde sua fundação até seu desaparecimento.


Nessa história, o que mais chama atenção é o fato de que a Escola União Indústria inicialmente não estava prevista no projeto de Procópio. Ela foi consequência de imposições feitas pelo governo imperial para resolver o saldo negativo e as dívidas provenientes da construção da estrada, uma vez que, além dos problemas administrativos, os recursos provenientes de sua exploração não eram suficientes para garantir a sua própria conservação. Em outras palavras, a estrada por si só não tinha solvência e, contraditoriamente, em troca de assumir as dívidas da Companhia, o Império impôs ao concessionário, além do gerenciamento da estrada, a construção e administração de uma escola de agricultura feita nos moldes das mais modernas escolas em funcionamento na Europa.


A Escola oferecia vaga para 60 alunos, dos quais 20 seriam compostos por estudantes pobres que a frequentariam gratuitamente e seriam encaminhados pelas províncias de Minas Gerais e Rio de Janeiro. A expectativa era a de que a União Indústria poderia se sustentar por meio das mensalidades que seriam pagas pelos estudantes não gratuitos, pela venda dos produtos que ela própria produziria, pela contribuição dos lavradores interessados no desenvolvimento da agricultura e pelo auxílio da província de Minas Gerais. Recursos do Império não foram alocados na Escola, pois isso fazia parte do acordo estabelecido entre Mariano Procópio e o governo imperial para resolver os problemas das dívidas em que a Companhia andava mergulhada antes da fundação da Escola.


Em síntese, tudo estava a indicar que a Escola União Indústria seria um empreendimento fadado a fracassar, especialmente ao se levar em consideração a experiência anterior com a estrada de rodagem. Trata-se de um projeto arrojado que dificilmente funcionaria sem a presença constante e o financiamento do Estado. Nesse sentido, Begonha Bediaga, demonstra que em relação ao Imperial Instituto Fluminense de agricultura, sua longevidade, manutenção e funcionamento dependeram muito diretamente dos aportes financeiros realizados pelo Império e pela província do Rio de Janeiro.

Algo que Adalberto Mattos também verifica em relação a Escola São Bento de Lages do Instituto Baiano e que não aconteceu com a Escola União Indústria, pois, por questões contratuais, não recebia investimentos do Império e as tentativas que Mariano Procópio fez para buscar apoio da província de Minas Gerais não surtiram efeito. Segundo Mattos, as negativas que Procópio recebeu do governo mineiro eram consequência da sua trajetória política que o ligava mais diretamente o Rio de Janeiro do que a sua província de origem, circunstância que o colocava em situação delicada nas disputas políticas locais. Soma-se a isso o fato de que, segundo o autor, os agricultores brasileiros da época estavam pouco interessados no melhoramento da agricultura e os conterrâneos de Mariano Procópio tinham muitas críticas aos seus posicionamentos e ao modo como ele lidava com os assuntos políticos locais e nacionais.


Diante de todas essas circunstâncias, além de nunca ter sido possível fechar uma turma completa de alunos durante sua existência, o número de formados na União Indústria foi muito pequeno. Não bastasse isso, logo após a sua inauguração em 1869 a Escola começa a apresentar problemas financeiros graves que implicam diretamente em dificuldades para sua manutenção, fato que se agrava com a morte de Mariano Procópio, em 1872. Assim, aos trancos e barrancos, a escola funcionou até 1884 quando o prédio e os terrenos onde funcionava foram levados a leilão.


Como anotado anteriormente, trata-se de uma história um tanto quanto trágica, que envolve um projeto bastante arrojado e que não encontrou grande repercussão na época. Ao longo da dissertação, Adalberto Mattos aprofunda essas questões e demonstra as adversidades vividas pela Escola União Indústria. Todavia, se compararmos com as outras iniciativas tomadas no período e que tinham o mesmo escopo, é possível verificar que as histórias não são muito diferentes. Os imperiais institutos também tiveram pouca eficácia, alguns foram mais pujantes que outros, mas não ao ponto de cumprirem completamente com as expectativas que criaram e com os discursos e projetos que os sustentavam. Comparativamente a Escola União Indústria, talvez a maior longevidade e eficácia dos institutos se deva a uma presença maior do Império e das províncias onde eles funcionaram realizando seu financiamento. No entanto, alguns institutos tiveram impactos menores do que a própria Escola União Indústria: o do Rio Grande do Sul nunca saiu do papel, o pernambucano e o sergipano, do mesmo modo, tiveram baixíssima efetividade.


Por fim, ainda gostaria de registrar que, ao explicar a razão da trágica história da Escola União Indústria, Adalberto Mattos busca demonstrar que o motivo principal foi a relutância da grande lavoura em se abrir para as novidades que tais iniciativas representavam em termos da agricultura brasileira. Portanto, a perspectiva é a de que os agricultores brasileiros, de modo especial a grande lavoura, estavam presos a rotina e que isso implicava em uma recusa em participar e apoiar empreendimentos como aqueles executados por Mariano Procópio e pelo próprio Estado imperial. Essa é uma explicação corriqueira e que tem certa eficácia em demonstrar os motivos pelos quais, senão todas, a maior parte das iniciativas realizadas a época com vistas a melhorar a agricultura foram um tanto quanto ineficientes. Todavia, ela não é suficiente, pois deixa escapar parte da dinâmica do processo, pois, sempre é conveniente lembrar que, embora o Império tenha levantado a bandeira do melhoramento, na prática sua atuação em garantir e fazê-lo acontecer, com algumas poucas exceções, foi bastante tímida e limitada.


Por sua vez, o argumento de que a agricultura brasileira da época em sua generalidade era rotineira, igualmente esconde alguns aspectos que são importantes para entender os processos que estavam em curso. Nessa linha, retomo uma das frases que Mariano Procópio gostava de repetir e que, de acordo com Mattos, estava escrita nas paredes das salas de estudo da Escola União Indústria no dia de sua inauguração: “em agricultura nada pode haver de absoluto, a própria rotina tem sua justificação”. Segundo fonte citada por Mattos e de autoria de Procópio, esta sentença estava escrita na entrada da instituição que era considerada o grande modelo das escolas agrícolas na época, a Escola de Grignon na França. Penso que, entre outras mensagens, a frase está a nos dizer que a rotina não é unicamente sinônimo de apego a tradição ou algo absolutamente imóvel e estático como muitas fontes e leituras dão a entender. Assim, devemos considerar que para se manter, por mais contraditório que pareça, a rotina precisa se transformar e modernizar, mas este é tema para uma outra discussão.


Referência:

MATTOS, Adalberto Alves de. Pela moralização do trabalho e prosperidade da indústria nacional: a Escola Agrícola União Indústria (1864-1884). Juiz de Fora: Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora, 2015. (Dissertação de Mestrado).

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