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  • Foto do escritorMarcio Both

Mulheres, Quintais e Faxinais: modernização da agricultura e seus impactos nos Faxinais do Paraná

A tese de doutorado de Marisângela Lins de Almeida, defendida junto ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina, aborda um tema de profunda relevância social e acadêmica. Em seu estudo, Lins de Almeida analisa aspectos relacionados a história das comunidades faxinalenses localizadas na região centro-sul do estado do Paraná.


Mais detidamente, seu foco está direcionado a investigar a história, as lutas, resistências e o importante lugar e papel desempenhado pelas mulheres faxinalenses na reprodução da sociabilidade e cosmovisão característica dos faxinais. Para tanto, a autora direciona seu olhar para o caso específico dos faxinais Rio do Couro e Faxinal do Salto, situados respectivamente nos municípios de Irati/PR e Rebouças/PR. Ainda dentro dessa delimitação, procura analisar a importância dos quintais e das mulheres que deles cuidam na vida cotidiana, na reprodução dos faxinais enquanto forma de viver, se relacionar com a terra e com a produção, bem como dos próprios camponeses faxinalenses.


A autora demonstra que os faxinais estão presentes no Paraná desde o início do século XX, que uma das suas principais características se localiza na forma como os faxinalenses se relacionam com a terra, pois mantém maneiras especificas de lidar com seu uso e apropriação. Neste caso, o diferencial está na existência e na partilha de terras de uso comum, destinadas aos animais de criação (porcos, ovelhas, gado vacum, equinos etc.), lugar onde também se localizam as casas dos faxinalenses. Além dessa presença, existem as terras de lavoura, que são apropriadas individualmente por cada família e, geralmente, são destinadas a produção de gêneros de subsistência ou, mais recentemente, de produtos destinados ao mercado, tais como o fumo, soja e eucalipto.


Nesse universo, cada integrante do faxinal tem responsabilidades coletivas que são partilhadas e a principal delas é o cuidado com a área de uso comum, especialmente das cercas que delimitam esse espaço e impossibilitam que os animais tenham acesso aos lugares de cultivo, evitando assim possíveis estragos na lavoura. Igualmente trata-se de um lugar de vivência, marcado por sociabilidades próprias e que implicam em formas específicas de religiosidade e de relação com o meio ambiente, as quais são menos destrutivas em relação ao mundo natural, mas têm recebido impactos diretos dos processos característicos da chamada “agricultura moderna”, mecanizada e altamente vinculada ao mercado de comodities. Nesse processo, um dos principais impactos encontra-se exatamente no abandono, por parte de alguns faxinalenses, desses aspectos mais coletivos que historicamente configuraram e caracterizaram a vida nos faxinais. Quando não isso, é frequente ocorrer o êxodo dos faxinalenses que vendem suas propriedades a pessoas que se orientam por outras lógicas de produção e deixam de respeitar os preceitos característicos da sociabilidade local.


Assim, ao analisar a história dos faxinais no Paraná, a autora demonstra que nas últimas décadas, devido aos processos históricos e sociais que estão em curso, principalmente aqueles relacionados a modernização da agricultura que ganhou força significativa a partir da década de 1960, os faxinais estão enfrentando uma série de dificuldades para continuarem existindo o que repercutiu na diminuição significativa de sua presença no estado. Assim, são poucos os faxinais que ainda existem e muitas as dificuldades que vêm enfrentando para se reproduzirem, fato que tem impactado muito diretamente a vida dos faxinalenses, de modo especial das mulheres, guardiãs consagradas desse modo de vida, de suas histórias e memórias.


Nesse ponto, chegamos ao momento forte da tese de Marisângela: demonstrar os impactos das mudanças que aconteceram no universo agrário brasileiro nas últimas décadas do século XX, que ganharam formas e formatos particulares no século XXI, na vida dos faxinais e dos faxinalenses. Para chegar a esse problema, o ponto de partida da autora são os quintais e as mulheres faxinalenses, outro diferencial importante da investigação. Assim, ao ler a tese de Lins Almeida, aprendemos muito sobre lutas, resistências e sobre a história das mulheres dos faxinais.




A tese está dividida em quatro capítulos, no primeiro deles, Marisângela trata de contar a história dos faxinais no Paraná e relaciona isso com outras formas particulares de apropriação coletiva da terra existentes no Brasil em diferentes momentos históricos. Ainda neste capítulo, a autora foca na história dos dois faxinais que são objeto de sua análise, para, no capítulo seguinte, abordar mais diretamente os quintais, seus significados para o mundo dos faxinais e mais detidamente para as mulheres que os cultivam. Destaca-se neste caso, a cosmovisão, os costumes e sabedorias que estas mulheres manejam cotidianamente, saberes que envolvem formas de relação com a natureza, com a saúde, com a vida e a beleza daquilo que é cultivado.


No capítulo terceiro, o objetivo da autora é demonstrar as mudanças produzidas no ambiente dos faxinais a partir da modernização da agricultura, suas implicações na paisagem, nos costumes locais e, principalmente, seus impactos destrutivos. No quarto capítulo, demonstra a importância dos quintais e do quanto eles são um espaço de resistência aos processos descritos nos capítulos anteriores. Por sua vez, este é o momento em que o protagonismo das mulheres ganha significados todo especial, pois é nele que fica visível de forma mais palpável o quanto elas são as principais afetadas pelas mudanças provocadas pela modernização da agricultura e o quando nesse processo elas são cerceadas de seus saberes e formas de viver. Contudo, isso não significa passividade, pois a autora é eficaz em demonstrar que há resistência, que ela é cotidiana e que os quintais são um dos lugares principais onde ela acontece, ganha seus contornos e significados mais amplos.


Dessa forma, além de nos possibilitar conhecer aspectos dessa sociabilidade tão específica e das lutas que são travadas para garantir sua manutenção, a autora também traz para o centro da nossa atenção a história das mulheres faxinalenses, demonstrando sua importância e força. Lins Almeida, igualmente, nos faz refletir sobre os processos sociais contemporâneos, sobre a importância de revermos algumas formas como viemos lidando com o meio ambiente e os impactos destrutivos que tais formas têm produzido. Assim, os faxinais e as lutas que os faxinalenses historicamente vêm travando para garantir sua reprodução são um exemplo prático de que outras maneiras de se relacionar com a produção, com a propriedade e com a agricultura, historicamente definidas como arcaicas pelos agentes do progresso e da modernização, são nossa garantia de sobrevivência enquanto humanidade. Na verdade, nossa existência, em seus diferentes âmbitos (social, político, cultural, econômico etc.), depende muito diretamente da conservação do mundo ou, para ser mais preciso, do habitat e das condições desse habitat que possibilitam nos realizarmos enquanto humanos.


Referência

LINS DE ALMEIDA, Marisângela. Pode o quintal ser resistência? O trabalho e os saberes das mulheres nos quintais de Faxinais do Centro-Sul do Paraná. (Tese de Doutorado). Florianópolis: Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina, 2023.

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