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  • Foto do escritorMarcio Both

Propriedade e desenvolvimento do capitalismo no Amazonas (1870-1910)

Em sua tese de doutoramento, defendida junto ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense, Alan Dutra Cardoso, corajosamente enfrenta o desafio de pensar e debater os impactos dos processos referentes ao desenvolvimento do capitalismo, no contexto da virada do século XIX para o XX, na região amazônica brasileira.


Trata-se de um tema ainda pouco abordado na historiografia nacional e que possibilita uma série de reflexões que ajudam a entender e problematizar questões contemporâneas, as quais vêm fazendo parte do cotidiano do da vida dos brasileiros nos últimos meses/anos, tais como a dizimação das populações indígenas, em geral, e as Yanomamis, em particular, o problema dos garimpos e o da destruição ambiental, protagonizada pela expansão dos grandes cultivos em direção as áreas florestais.


Para realizar sua pesquisa, Cardoso toma como referência os processos de desenvolvimento e expansão de um mercado de terras na região analisada e os conflitos que acompanharam esse processo. Além disso, analisa o modo como, ao longo do tempo, nos embates e nas disputas, foram se constituindo e estabelecendo formas de relação com o espaço e com a propriedade mais afetas a concepção de mundo característica do capitalismo, a qual, inspirado em Karl Polany, Cardoso identifica como “Moinho Tropical”, expressão que dá título a tese.


Em seu desenvolvimento e expansão, o Moinho Tropical, como demonstra Alan Cardoso, entrou em choque com outras formas de lidar com o espaço, o trabalho, o tempo e a natureza. Maneiras de relação com a vida e a sociedade consideradas arcaicas e retrógadas e que, em nome do progresso e da civilização, deveriam ser substituídas por outras “mais evoluídas”. É nessa caminhada que as populações locais passaram a enfrentar e a viver um conjunto de transformações que impactaram direta e negativamente as suas vidas, pois, de maneira simbólica e prática, as mudanças que estavam em curso foram marcadas por um conteúdo altamente violento e desrespeitoso, implicando na dizimação e no desaparecimento de pessoas, de costumes e da própria floresta.


Por sua vez, para discutir e entender esse processo, Cardoso precisou encarar de frente a história da região amazônica brasileira, desde quando foi criada a Província do Amazonas na segunda metade do século XIX até o final da primeira década do século XX. Ao contar essa história e revisitar a historiografia produzida sobre o tema, o autor demonstra as especificidades e vicissitudes que caracterizaram a região amazônica no período. Destaca-se, nesse sentido, o desenvolvimento da economia gomífera, o deslocamento de populações vindas de outras regiões do Brasil, especialmente do Nordeste, em direção ao Amazonas, a constituição de tipos históricos específicos, tais como os seringueiros, a presença indígena e os conflitos que marcaram o processo de ocupação das terras da região. A partir disso, Cardoso produz um desenho crítico desse mundo e dos conflitos que marcaram sua constituição e, para dar conta de ilustrar essa história, a propriedade, o Direito (campo jurídico), o Estado e os conflitos inter e extraclasses são o foco principal da análise desenvolvida.



A pesquisa está organizada em quatro capítulos e toma como fonte de análise documentos produzidos pelo Estado e suas agências, principalmente processos criminais em que a terra e sua propriedade são objeto de disputa e discussão. Ao analisar essa documentação, problematizar seus silenciamentos e intencionalidades, Cardoso demonstra o quanto o processo que ele denomina como “Moinho Tropical” representava um projeto de mundo que estava internacionalmente articulado, era parte do processo de desenvolvimento do capitalismo aqui no Brasil e em outras paragens e se retroalimentava e autodefinia mediante as particularidades locais, características da região amazônica e de sua história. Portanto, o Moinho Tropical não é um sujeito histórico, mas constituído por sujeitos que ocupam diferentes posições/situações na sociedade, que agem historicamente a partir de suas histórias próprias e das realidades sociais, culturais e históricas em que vivem, tanto as regionais como aquelas que ultrapassam as fronteiras das localidades onde existem histórica e socialmente.


Também destaco, por fim, a relevância histórica, social, política e acadêmica da pesquisa desenvolvida por Alan Dutra Cardoso. Do mesmo modo, o seu comprometimento com tais questões, visível e presente na tese desde a introdução até a sua conclusão. Assim, retomo a reflexão que deu início a resenha, aquela que se refere aos processos que ocorrem hoje na Amazônia e têm causado tanta preocupação mundo afora. Em relação a tal assunto não há dúvidas de que a situação atualmente vivida carrega uma série de novidades ainda pouco conhecidas, contudo, elas não são tão novas assim. Nesse sentido, a tese aqui em foco demonstra que a compreensão completa do problema passa por conhecer o seu passado e os diferentes significados que adotou ao longo do tempo, especialmente para os povos da floresta, os quais, com certeza, têm muito a ensinar ao mundo sobre como bem viver no mundo.


Referência Bibliográfica:

CARDOSO, Alan Dutra. Moinho Tropical: terra, conflito e mercado no Amazonas (1870-1910). (Tese de Doutorado). Niterói: Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense, 2023.

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